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economista marcelo neri‘A nova classe média está ferida, mas não morta’. Com essa frase, o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), começou a entrevista em que fez um diagnóstico do que aconteceu com a parcela da população brasileira que ascendeu da classe D/E para a C, entre os anos de 2003 e 2014. Ele também explicou o que vem acontecendo com essa parcela da sociedade desde 2015, quando a crise econômica começou a derrubar uma a uma de suas principais conquistas, como um efeito-dominó. O pai da expressão “nova classe média” é realista: acredita que estamos tão próximos do fundo do poço a ponto de já conseguirmos avistá-lo. Por outro lado, Neri destaca a resiliência, ou seja, a incrível capacidade desses brasileiros de lidar com as dificuldades e superá-las. Mas não arrisca dizer quando a atual crise ficará para trás.

Muitas famílias perderam ou estão perdendo algumas das conquistas da nova classe média, como educação privada, plano de saúde, casa própria etc. Esse quadro de perdas pode ser totalmente atribuído ao desemprego?

O desemprego, talvez, esteja um pouco superdimensionado. Se eu avaliar as causas da queda de renda, até junho de 2016, que é, basicamente, a queda (o ápice dela), 74% são efeito da inflação, e 26% são efeito do desemprego. Obviamente, o desemprego alto diminuiu o poder de barganha. Os trabalhadores passaram a ter perda real porque, com o desemprego alto, não conseguem negociar (reajustes salariais com os patrões). Agora, em agosto, está meio a meio: metade desemprego e metade inflação. A notícia “boa” é que está piorando menos. Então, eu acho que, talvez, já estejamos começando a ver o fundo do poço.

Mas, pelo que você diz no seu livro (“A nova classe média — O lado brilhante da base da pirâmide”, Editora Saraiva), o principal símbolo da nova classe média foi a carteira de trabalho, certo?

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Exatamente. Aí, a perda foi grande. Antes do surgimento da nova classe média, eram tiradas de 700 mil a 800 mil carteiras de trabalho por ano. Isso passou para 1,5 milhão e até 2 milhões. Agora, está em menos 1,5 milhão.

Uma questão central já levantada por você é até que ponto a nova classe média poderia impulsionar o crescimento econômico por meio de seu potencial de consumo. Como os últimos números têm sido negativos, em vários setores, a resposta para isso seria que ela foi incapaz de gerar renda de forma sustentável?

Eu acho que não. Houve redução de cinco milhões de postos de trabalho em 2015. Realmente, é uma desgraça a céu aberto. Mas essa nova classe média foi muito mais sustentável do que as pessoas admitiam. Agora, chegou o momento de ajustes. Mas, de 2004 até 2014, foram anos crescendo. Agora, temos tem um ano e meio de queda. Primeiro, há um componente estrutural. Se eu pegar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em que entra não somente a renda, mas a expectativa de vida e a educação... Quantos por cento dos municípios do Brasil tinham IDH muito baixo? Eram 41%, em 2000. Em 2010, eram 0,6%. Houve uma mudança estrutural gigantesca. Mas isso foi muito por conta da história das pessoas. Foram conquistas pessoais, não foi o Estado fazendo isso. As pessoas conseguiram porque suaram, tomaram decisões. Estabilizou-se a economia em 1994, deu-se um horizonte, e as pessoas começaram a se organizar.

Muita gente atribui o surgimento dessa nova classe ao crédito, ao aumento de renda, e não à educação, como nos países em que isso aconteceu de forma sustentável...

Eu discordo. O IDH, que também leva em conta a educação, mostra isso. O nível de educação no Brasil ainda é baixo, mas o índice melhorou. O principal motor do Brasil foi o mercado de trabalho. E, por trás do mercado de trabalho, o combustível foi a educação. Se eu fizer uma decomposição, o principal componente de expansão dessa nova classe média foi a educação. Ela era muito pior do que é. Ela ainda está em um nível insatisfatório, mas deu um salto.

Quando você fala em Educação, programas como Prouni, Pronatec e Fies tiveram um grande peso nessa melhora?

É difícil avaliar isso. Identificamos um salto na escola técnica muito antes do (surgimento do) Pronatec, que é um pouco dessa parceria público-privada. De 2003 a 2005, houve um salto nisso. Por quê? Porque o sujeito é demandado. Ele não tem qualificação, trabalha durante o dia e faz o curso à noite, com todas as deficiências de ensino, e isso é louvável.

Em algum outro país houve esse impulso da nova classe média, como no Brasil?

Houve uma nova classe média nos países do Brics (grupo de países emergentes que reúne Rússia, Índia, China e África do Sul, além do Brasil)? Houve, mas neles a desigualdade aumentou e muito. No Brasil, não: foi desigualdade diminuindo enquanto havia crescimento. O que está por trás disso? Trabalho, educação... São vários fatores. Educação profissional é um tema interessante porque é assim: quem é pobre tem pouco, quem é classe C tem mais e quem é classe A tem muito. O que tem mais no meio do que nas pontas? Educação profissional.

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Em relação a essas famílias que entraram para essa nova classe média e agora saíram, com uma retomada do emprego, elas podem voltar ao patamar anterior?

Estamos num momento muito difícil de se fazer projeção. Eu fiz projeções no livro, para daqui a cinco anos, mas não faço mais. O que os dados mostram é que, talvez, o pior já tenha passado, a não ser que volte a piorar. O Brasil foi um laboratório a céu aberto, mas aprendemos pouco com isso. Não sabemos o que deu certo, o que é melhor. O estado brasileiro foi muito deficiente nesse processo.

Você destacou, num artigo publicado recentemente, que, de 2006 a 2013, o Brasil ocupou a posição mais alta no ranking global de felicidade futura, mas declarou que essa alta expectativa carrega também uma capacidade de frustração das pessoas. A nova classe média brsaileira, hoje, se sente frustrada em relação a tudo aquilo que conquistou nos últimos anos e agora perdeu?

Acho que sim. No mundo afora, existe esse problema, mas no Brasil a questão é bem mais séria. Há uma crise de valores, de expectativas, uma frustração... Essa nova classe média teve dificuldade de ser enxergada, de ser entendida... As empresas até fizeram um esforço, tivemos as políticas públicas, como o Prouni, o Pronatec, o “Minha casa, minha vida”... Mas o que deu certo? Não sabemos. Porque o Estado brasileiro consegue passar ao largo das avaliações. O Estado consegue não ser avaliado no Brasil.

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