Cadernos Especiais

Turismo

Os 50 tons de azul de Bonito

Lagoa Azul em Bonito, Mato Grosso

Na região de Bonito, no Mato Grosso do Sul, as definições de beleza e de aventura são atualizadas a cada instante. Águas cristalinas, grutas pré-históricas e uma fauna exuberante convidam o viajante para um mergulho neste paraíso natural. Conheça os 50 tons de azul de Bonito.

É cedo quando nos embrenhamos a pé na trilha. Jatobás, cedros e um ipê-roxo aqui chamado de piúva — despontam no cerrado mesclado com manchas de mata tropical. Rastros de porcos-do-mato em fila indiana revelam um pouco da vida silvestre camuflada. Em 15 minutos, um mirante nos põe diante de uma dolina, depressão calcária que represa o que parece uma esmeralda azul cercada pelo verde folhoso. Uma escadaria de madeira nos conduz 75 metros para baixo, até um deque. Vamos de snorkel e colete, enquanto um grupo de turistas se equipa com cilindros e nadadeiras. Entrar na Lagoa Misteriosa é mergulhar em um poço límpido cravado por feixes de sol que tornam a experiência fascinante. Desprender-se do colete para alguns segundos de apneia é se deixar levar por um estado profundo de encantamento. O mistério da lagoa também tem a ver com profundidade: em 1998, um mergulhador conseguiu descer até 220 metros, sem encontrar o fundo.

Estamos entre os municípios de Bonito e Jardim, no Mato Grosso do Sul, cenário de atrativos mundialmente famosos por suas águas cristalinas o ano inteiro. Uma exceção é a Lagoa Misteriosa, que de outubro a abril fica turva e esverdeada na superfície por causa do calor e da consequente proliferação de algas. Dizem que até os anos 1960 ela era sempre límpida. “Achávamos que era um processo natural: até 2001, a camada de algas descia 40 m de profundidade no verão. Mas em 2005, só de remanejar o gado e o esterco das proximidades, essa camada diminuiu para 27 metros”, conta o instrutor João Gomes, que conduz grupos de mergulhadores profissionais e amadores dispostos a descer até 30 metros com cilindro. A conservação da lagoa hoje inclui curvas de nível, replantio de espécies nativas e barreiras físicas para evitar o escoamento de matéria orgânica para a água. Assim como a maioria dos destinos por aqui, estamos dentro de uma propriedade privada.

Pacote Viagem Para Bonito da Zeos TravellingVagas limitadas

Em Bonito e Jardim, quase todos os passeios são pagos e devem ser reservados com antecedência nas agências locais. Chegar sem programação pode resultar em viagem perdida porque o número de visitantes é limitado e não ultrapassa dez por grupo. A Gruta do Lago Azul foge um pouco a essa regra. O cartão-postal de Bonito comporta até 15 pessoas por descida.

Degraus de pedra nos levam 150 metros para baixo, percurso que vai se anuviando à medida que adentramos na gruta adornada por raízes suspensas e estalactites de milhares de anos. Chegamos a uma galeria escura, onde a água se revela incrivelmente azul. A explicação para sua limpidez é uma combinação de minerais como carbonato de cálcio e magnésio que, com a refração solar, imprime esse tom anilado. Em dezembro, a luz solar incide diretamente sobre o lago, tornando-o mais reluzente.

Leia também: Balneário Camboriú inaugura maior roda gigante estaiada da América Latina este ano

Hoje em dia o mergulho é proibido. Também não se conhece a profundidade da Gruta, tombada em 1978 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 1992, uma expedição franco-brasileira de mergulhadores descobriu ali fósseis de tigre-dente-de-sabre e de preguiça-gigante, que provavelmente escorregaram para o fundo do lago criando um cemitério pré-histórico submerso.

Foi depois daquela expedição que o turismo em Bonito teve seu grande boom. Era o ano da ECO 92, conferência da ONU sobre meio ambiente realizada Rio de Janeiro. A vinda dos pesquisadores trazia visibilidade e um melhor entendimento dos empreendedores locais sobre a vocação da região. O resultado são fazendas onde agricultura e pecuária se adaptaram ao ecoturismo. É assim na Ceita Corê, que oferece aos visitantes de cavalgadas a banhos de cachoeiras no Rio Chapena, além de passeios em trilhas de fácil acesso, com direito a travessias em pontes de madeira que lembram os filmes de aventura. Não deixe de conhecer a nascente do Chapeninha, outra caverna límpida inundada e de profundidade desconhecida.

Nos pastos e plantações ou nas veredas avistamos tamanduás, antas, macacos, veados e emas. Na Estância Mimosa, outra fazenda dedicada ao ecoturismo, um pântano é a casa de jacarés-de-papo-amarelo, que vêm tomar sol pertinho do visitante. Cortada pelo Rio Mimoso, a Estância também nos presenteia com cachoeiras, passeios de barco e uma água verde-turquesa que, por conta das chuvas de abril e maio, estava turva na nossa chegada.

Buraco das araras

Ao Sul do Pantanal e a 116 km da fronteira com o Paraguai, essa região mistura influências indígenas, da colonização espanhola e das levas bandeirantes. Na mesa, feijão-tropeiro e arroz carreteiro acompanham peixe, churrasco ou carne de jacaré de cativeiro. Histórias de pescador ou sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870) são ouvidas dentro do carro entre os destinos, mas as distâncias são curtas: um dos itinerários mais longos é para o Buraco das Araras, a 60 km do centro de Bonito, em Jardim. A propriedade conduz o Programa de Monitoramento das Araras-Vermelhas em uma dolina de arenito, onde vivem cerca de 60 casais de araras-vermelhas grandes na época da reprodução, de julho a outubro. Mas, calma: elas estão por aqui o ano inteiro. Habitat da espécie, que escava a rocha para construir o ninho, o enorme paredão sedimentar tem uma das maiores concentrações de araras do mundo. Minutos de observação e ouvimos seu canto estridente amplificado pelo eco em meio a revoadas, sempre em duplas. Monogâmicas, elas vivem até 60 anos e por aqui são ameaçadas pelos tucanos, que comem os ovos e os filhotes.

Andar nesse pedaço sul-mato-grossense é adicionar ao vocabulário novas espécies de pássaros, como curicacas, surucuás e almas-de-gato. “Eu nem sei dizer qual o mais bonito. Sou meio suspeito para falar”, brinca o guia Valdemilson Nunes Morales, o Mano, que largou emprego público para ser guia. A hora do trabalho que Mano mais gosta é a das flutuações. Mas parece contraditório chamar isso de trabalho.

• PUBLICIDADE | ZEOS TRAVELLING •

Muitos tons de Azul

São quatro as flutuações principais oferecidas nos roteiros: Aquário Natural, Nascente Azul, Rio Sucuri e Rio da Prata. Impossível eleger a mais bonita, mas as duas primeiras têm como diferencial rios menos correntosos e uma estrutura atrativa para as crianças, com balneário e tirolesas. Na Nascente Azul, uma delas faz o visitante sobrevoar meio quilômetro de floresta.

O significado de aventura é o tempo todo atualizado. Flutuar na Nascente Azul começa com um mergulho livre na nascente do Rio Bonito, de um azul próximo ao celeste. Seguindo seu percurso, cardumes de piraputangas e curimbas vêm ao nosso encontro com uma naturalidade que nos faz pensar que estamos todos em um aquário ornamental.

A água é gelada, não importa a estação, mas o macacão de neoprene não deixa que sintamos frio. Calçados de borracha são obrigatórios, para que o fundo dos rios seja minimamente impactado por nossa presença. É proibido bater as pernas, mas nem precisa, já que o movimento é ajudado pela correnteza e pelas roupas de borracha e coletes, que, assim como os demais equipamentos, são fornecidos nos passeios.

A flutuação pelo Sucuri é uma das mais fascinantes. Vista em imagem aérea, a sinuosidade do rio lembra uma imensa serpente azulada no meio da mata verde. Com os óculos de mergulho entendemos por que essa é uma das águas mais cristalinas do mundo, o que se explica também pelo carbonato de cálcio. São quase dois quilômetros atravessando o colorido da vegetação aquática, que, em certos trechos, nos engole. Não se preocupe: a biodiversidade é equilibrada e não fazemos parte da cadeia alimentar das cobras bonitenses.

A dica é relaxar e se deixar levar pela correnteza. No Rio Olho D’Água, que faz parte da flutuação do Rio da Prata, ela é mais forte. A sensação é de nadar com a mesma desenvoltura dos dourados e piraputangas, que parecem nos encarar curiosas. Os cardumes são mais abundantes e a extensão é um pouco maior, com direito a mergulho em ressurgências de água que lembram erupções vulcânicas e chacoalham a areia do leito, fazendo o barulho de uma pastilha efervescente. O Olho D’Água desemboca no Prata, onde chegamos à parte final do passeio. A transparência cede lugar a uma correnteza leitosa, as máscaras não fazem mais sentido e é hora de apreciar a paisagem deixando que a força da água se encarregue do resto. Já de tênis, na margem, a sensação é de flutuar. Só que em terra firme. Realmente, bonito é pouco para definir este lugar.

• PUBLICIDADE | ZEOS TRAVELLING •

More about: | |

Siga o DiviCity

Pesquisa DiviCity.com

VOCÊ TEM MEDO DO CORONAVÍRUS?
Booking.com
Booking.com

Redes Sociais e Contato

© 2018 DiviCity.com. Todos os direitos reservados.Desenvolvido pela Iniciativa Comunicação Iniciativa

Search